1. Introdução
A reestruturação de passivo é uma estratégia essencial para garantir a saúde financeira de pessoas físicas e jurídicas. Com a entrada em vigor da Resolução CMN nº 4.966/2021, que altera significativamente o regime contábil das instituições financeiras, surge uma nova oportunidade para renegociação de dívidas e redução sustentável dos passivos, com efeitos diretos na concessão de crédito, exigência de garantias e custo financeiro.
Neste artigo, vamos explorar como a reestruturação de passivo pode ser impulsionada pelas novas regras do Banco Central do Brasil, alinhadas ao padrão internacional IFRS 9, e quais são os passos práticos para sua aplicação, especialmente no contexto de pessoas físicas e jurídicas endividadas.
2. Fundamentos da Resolução CMN nº 4.966/2021
🔍 Visão Geral
Base normativa: Alinha a contabilidade brasileira ao padrão IFRS 9, já adotado em diversos países.
Vigência plena: A partir de janeiro de 2025.
Instituições abrangidas: Todas as autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil.
⚙️ Principais Inovações
| Tema | Antes (Res. 2.682/99) | Agora (Res. 4.966/21 – IFRS 9) |
|---|---|---|
| Provisões | Baseadas em perdas incorridas | Baseadas em perdas esperadas |
| Classificação de ativos | Categorias rígidas e reativas | Com base no modelo de negócios |
| Juros | Critérios variados | Taxa de juros efetiva como padrão único |
| Análise de risco | Pós-evento (inadimplência) | Pró-ativo, com estimativas (PD, LGD, EAD) |
3. Reestruturação de Passivo: Conceito e Benefícios
📉 O que é?
Reestruturação de passivo é o processo de negociação, repactuação ou refinanciamento de dívidas, com o objetivo de melhorar o perfil financeiro e evitar inadimplência.
✅ Benefícios para Pessoas Físicas e Jurídicas
Pessoas Físicas:
Redução de parcelas e taxas de juros.
Maior acesso ao crédito com menor risco percebido.
Inclusão em programas de renegociação com base em novas diretrizes de risco.
Pessoas Jurídicas:
Melhoria do rating interno perante bancos.
Redução de provisões de crédito a liberar (impactando o custo do crédito).
Possibilidade de acesso a crédito mais barato com base em nova modelagem de risco.
4. Como a Resolução CMN 4.966/21 Impulsiona a Reestruturação
🔄 Impacto nas Instituições Financeiras:
Com a exigência de provisão para perdas futuras, os bancos passam a monitorar o risco com antecedência.
Isso incentiva a renegociação precoce das dívidas e a oferta de melhores condições antes da inadimplência.
📉 Redução do Passivo via IFRS 9:
Ao alterar o modelo de precificação do risco, há maior margem para concessão de descontos em dívidas antigas, com base no cálculo da perda esperada.
Dívidas que antes eram mantidas no balanço como “em aberto” agora podem ser baixadas com negociação direta, melhorando o índice de inadimplência e liberando capital.
5. Passo a Passo para Aplicar a Reestruturação de Passivo
🔁 Etapas Estratégicas
Etapa 1: Análise do Passivo Atual
Levantar todas as dívidas (prazos, taxas, garantias).
Identificar dívidas com maior impacto no fluxo de caixa.
Etapa 2: Classificação do Risco pela Nova Norma
Avaliar como os bancos classificam o risco de sua dívida com base no modelo de negócios.
Identificar quais passivos estão sujeitos a perdas esperadas.
Etapa 3: Negociação com Base na Resolução 4.966
Usar a norma como argumento: antecipação de perdas permite concessão de descontos, alongamento ou novação da dívida.
Solicitar análise interna do banco com base na nova política contábil.
Etapa 4: Formalização da Reestruturação
Redação de novo contrato, preferencialmente com redução da taxa de juros efetiva e melhores garantias.
Aplicação do método de custo amortizado e reconhecimento contábil favorável.
Etapa 5: Monitoramento Contínuo
Acompanhar o impacto no rating de crédito, fluxo de caixa e demonstrativos contábeis.
🔍 Importância de Auditar Relacionamentos Pretéritos em Reestruturações de Passivo
A auditoria de relacionamentos pretéritos — ou seja, a análise minuciosa das relações financeiras, contratuais e operacionais anteriores com credores — é uma etapa crítica em qualquer processo de reestruturação de passivo, especialmente no contexto da Resolução CMN nº 4.966/2021. Essa análise histórica permite mapear padrões de risco, identificar cláusulas abusivas, vícios contratuais ou erros contábeis, e fornecer insumos estratégicos para a renegociação eficaz.
📂 Tópico: Auditoria Retroativa como Ferramenta Estratégica de Redução do Passivo
1. O que é Auditoria de Relacionamentos Pretéritos?
Trata-se da revisão de todos os contratos, aditivos, negociações, inadimplementos, execuções, renegociações e amortizações anteriores junto a instituições financeiras e fornecedores, com foco em:
Validação da legalidade das cláusulas contratuais.
Verificação de taxas, indexadores e práticas abusivas.
Identificação de oportunidades de revisão ou nulidade parcial de obrigações.
2. Por que é Estratégico na Nova Regulação?
Com a Resolução 4.966/2021, os bancos devem precificar os riscos com base em modelos estatísticos que se valem de comportamentos passados. Assim:
Se a empresa ou pessoa comprovar histórico positivo (ou inconsistências contratuais anteriores), pode forçar reclassificação de risco e obter melhores condições na reestruturação.
Auditorias anteriores mal conduzidas podem inflar o passivo, ao passo que uma auditoria eficaz pode reduzir significativamente os valores reconhecidos como dívida.
3. Benefícios Práticos
Pode gerar reconhecimento de créditos por cobrança indevida.
Permite revisão de garantias e liberação de ativos onerosos.
Fortalece o poder de barganha ao renegociar com base em fatos auditados e documentados.
4. Aplicações Combinadas com a Resolução 4.966
Ao cruzar o resultado da auditoria retroativa com os novos critérios de classificação e perdas esperadas, é possível:
Solicitar reclassificação da operação como de menor risco, influenciando provisões do banco.
Contestar perdas contabilizadas pelo credor, especialmente se baseadas em dados distorcidos de relacionamento
6. Considerações Finais
A Resolução CMN nº 4.966/2021 não é apenas uma mudança técnica na contabilidade das instituições financeiras — ela representa uma janela estratégica para pessoas físicas e jurídicas reestruturarem seus passivos com inteligência e aproveitarem o novo modelo de precificação de risco.
Ao alinhar os critérios brasileiros ao IFRS 9, o sistema financeiro se torna mais transparente, proativo e sensível à realidade econômica dos devedores. Para aqueles endividados ou em busca de eficiência financeira, o momento é oportuno para reavaliar e renegociar com base técnica e respaldo normativo.
7. Próximos Passos
📞 Empresas e pessoas físicas: Devem procurar seus credores com análise detalhada do passivo e argumentos baseados na nova norma.
🧾 Contadores e advogados: Atualizar modelos de contratos e estratégias de negociação considerando o método de perdas esperadas.
🧠 Capacitação: Estudar o IFRS 9 e a Resolução 4.966/2021 em profundidade, visando melhor interlocução com bancos e instituições financeiras.




